O Intermitente Diário

O dia em que Ronaldo se zangou

Pais, mães e treinadores deveriam explicar às crianças que, em termos de caráter, não devem seguir o exemplo atualmente dado por CR7

Quinta-feira, 1 de outubro de 2026


Passei alguns dias sem escrever porque não encontrei um tema que merecesse uma reflexão séria. Além disso, duvido que alguém se interesse pelos assuntos que dominam a atualidade. Ainda assim, apetece-me escrever e libertar a mente do peso das notícias que surgem diariamente na comunicação social.

A relevância das minhas escolhas é relativa; por isso, seleciono os temas que mais me impressionam, mesmo que não interessem a mais ninguém.  

Perante o meu vasto desconhecimento de futebol, só consigo dizer disparates e banalidades. Quanto a isso, pouco há a fazer, e lamento não conseguir mudar a situação.

Ontem, o dia pertenceu a Ronaldo: Ronaldo aqui, Ronaldo ali, Jorge Jesus acolá… Em Portugal e, talvez, no mundo, os canais de televisão e a imprensa online apresentaram o caso como o maior acontecimento — e desastre — do dia. Primeiro, instalou-se a preocupação; depois, falou-se em catástrofe. Portugal gira em torno do futebol e, neste caso, de Ronaldo, que abandonou a seleção.

Não tenho qualquer interesse por futebol, nem particular interesse por Ronaldo. Para o país, porém, parece não haver assunto mais importante: nem o caos na saúde (SNS) e na educação, nem os baixos salários e pensões, nem o preço dos combustíveis e a consequente inflação.

O futebol e Ronaldo fazem esquecer tudo o que afeta a vida dos cidadãos. Futebol, seleção, Ronaldo e Jesus tornaram-se referências da vida em sociedade: alimentam o público e proporcionam-lhe muitas alegrias. Somos pobres, mas gratos pelos inúmeros golos de Ronaldo. É obrigatório premiá-lo, como se precisasse, apesar de ser uma das figuras públicas e um dos desportistas mais ricos do mundo. O seu património coloca-o entre os multimilionários do país, embora abaixo dos nomes que tradicionalmente lideram a lista das maiores fortunas nacionais.

Veja-se: após a notícia da saída de Ronaldo, a seleção perdeu mais de 300 mil seguidores nas redes sociais. Ronaldo sempre foi notícia. Tudo tremeu e, por enquanto, continuará a tremer. Até o primeiro-ministro falou com Cristiano Ronaldo, Jorge Jesus e Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Para Portugal, foi uma perda: vivemos do turismo e de Ronaldo, e é preciso gerir os danos.

Enquanto o país se distrai com conflitos no futebol, os assuntos que realmente importam aos portugueses passam despercebidos. A reação de Gustavo Carona ao abandono da seleção por Cristiano Ronaldo foi resumida assim: “Jesus acabou com o Cristianismo”.

Deixo, então, alguns dos pontos de vista de Gustavo Carona, publicados na revista Nova Gente, sobre uma entrevista de Ronaldo ao jornalista britânico Piers Morgan:

Em novembro de 2025, o médico e humanitário Gustavo Carona criticou duramente Cristiano Ronaldo após a entrevista concedida ao jornalista britânico Piers Morgan), na qual o jogador afirmou ter “algo em comum com Donald Trump”.

Conhecido pelas missões humanitárias que realizou em zonas de conflito, Carona entende que as declarações de CR7 transmitem um exemplo muito negativo aos admiradores do futebolista.

Nas redes sociais, Carona classificou a entrevista a Piers Morgan como um péssimo exemplo para os jovens e adultos que idolatram Ronaldo. Defendeu ainda que pais, mães e treinadores deveriam explicar às crianças que, em termos de caráter, não devem seguir o exemplo atualmente dado por CR7.

O médico foi mais longe e apontou semelhanças preocupantes entre Ronaldo e o antigo presidente norte-americano, entre elas o “narcisismo patológico”, a “ostentação imensurável” e a crença numa superioridade desumana. Segundo Carona, ambos comportam-se como se as leis não se lhes aplicassem, e a entrevista reforça essa perceção.

Carona criticou também comportamentos recentes do capitão da seleção portuguesa em campo, incluindo um episódio de agressão no jogo contra a Irlanda. Salientou que Ronaldo não pediu desculpa, aplaudiu ironicamente o árbitro e revelou falta de humildade.

Gustavo Carona contestou ainda a imagem solidária de CR7. Na sua opinião, atos pontuais de caridade não constituem ajuda humanitária. Se Ronaldo pretendesse ter impacto global, já teria criado uma Fundação CR7 capaz de intervir em problemas estruturais, como a fome, a pobreza extrema ou as alterações climáticas. Carona acrescentou que o jogador nunca teve coragem de se pronunciar sobre a Palestina.

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